Reforma Intima: Quem Precisa?

  • 20 July 2010

REFORMA ÍNTIMA: QUEM PRECISA?  Ivone Molinaro Ghiggino

Semper ascendens (*1): “De muito longe venho, em surtos milenários; vivi na luz dos sóis, vaguei por mil esferas e, preso ao turbilhão dos motos planetários, fui lodo e fui cristal, no alvor de priscas eras. Mil formas animei, nos reinos multifários: fui planta no verdor de frescas primaveras e, após desenvolver impulsos embrionários, galguei novos degraus: fui fera dentre as feras. Depois que em mim brilhou o facho da razão, fui o íncola feroz das tribos primitivas e como tal vivi, por vidas sucessivas. E sempre na espiral da eterna evolução, um dia alcançarei, em planos bem diversos, a glória de ser luz, na Luz dos universos.” (2*)

 

Espíritos que somos, fomos todos criados “simples e ignorantes, isto é, sem saber” (*3), devendo, através das múltiplas chances encarnatórias, conhecer a verdade e palmilhar a estrada da evolução rumo à perfeição, o que nos proporcionará “a pura e eterna felicidade” (idem), que é nossa destinação.

Jesus, há mais de dois mil anos, ensinou-nos o Mandamento do Amor, base indispensável para qualquer melhoria individual e coletiva. A seguir, com as importantes Parábolas, ele nos exemplificou quais atitudes devemos ou não tomar. E, como roteiro seguro, receita para essa escalada luminosa rumo ao progresso, legou-nos as Bem-Aventuranças, verdadeiro “coração” do Sermão da Montanha: aí, nessas pérolas inigualáveis de sabedoria e doçura, encontramos, em maravilhosa simplicidade, os recursos íntimos que devemos desenvolver em nós a fim de capacitar-nos para pensar, sentir e agir no bem.

Mais tarde, em pleno século XIX, a Doutrina Espírita veio, com a permissão de Deus e sob a orientação do Cristo, recordar-nos seus ensinos, enfatizando a necessidade de que os sigamos para sermos realmente felizes, o que é o anseio de toda a Humanidade.

Assim, com esclarecimentos detalhados, é-nos sinalizada, como mandatória, a nossa reforma íntima, único meio de alcançarmos nossas metas de júbilo e pureza. Aliás, Jesus já nos animava a encetarmos essa reconstrução interior, como ao nos afirmar: Vós sois a luz do mundo.” (*4), “Vós sois o sal da terra.” (*5)…

E nós, como estamos?

Apesar de todas essas informações, de todos esses avisos, muitos de nós ainda estamos claudicantes nesse mister, às vezes até caminhando invigilantes, descuidados, esquecendo que, embora progresso seja uma lei divina, nós somos seres inteligentes, “O princípio inteligente do Universo.” (*6), capazes de alcançar patama-res evolutivos superiores mais ou menos rapidamente conforme o uso que façamos de nosso livre arbítrio.

Por que é tão difícil praticarmos com autenticidade a Lei do Amor?

Para algumas pessoas, a palavra “amor” encerra tanta grandeza, tanta sensação de incomensurável, que não raro sentem-se “esmagadas” e incompetentes ante esse peso, praticamente desistindo dessa inadiável empreitada.

Todos nós precisamos entender que “reformar” significa “novamente dar forma a alguma coisa”, “modificá-la para melhor”, e, porque não, “retocá-la”, “embelezá-la”… É higienizarmos nosso interior, sanando-o de miasmas pestilenciais, eliminando sombras persistentes, as quais, desavisadamente, permitimos que nos invadissem e que insistem em querer ocultar a luz da verdade que irá nos libertar.

Um bom amigo nosso (Milton Menezes), em suas explanações em tarefas espíritas, costuma alertar a seus ouvintes de que, se não nos achamos aptos ainda a cultivar o amor incondicional, devemos dedicar-nos corajosa e persistentemente a semear e cultivar os “filhotes do amor” (respeito, paciência, tolerância, humildade, simpli-cidade, etc)… Desse modo, embora enfrentando numerosas dificuldades individuais, iremos paulatinamente eliminando erros e edificando virtudes, as quais nos levarão ao Amor Incondicional, semelhante ao de Jesus.

Por conseguinte, ouçamos a voz de Jesus em nós, e, com perseverança, anulemos conscientemente os adornos enganosos do Homem Velho, que nos cerceiam a evolução, e dediquemo-nos a esculpir em nós mesmos o Homem Novo, Cidadãos do Universo, dignos filhos amados de nosso Pai.

Não tenhamos dúvida que, então, estaremos transformando a Terra realmente num mundo azul, belo e evangelizado.

Recordemos as palavras judiciosas do Dalai Lama: “Se você quer transformar o mundo, experimente primeiro promover o seu aperfeiçoamento pessoal e realizar inovações no seu próprio interior.” 

1) Latim: “Sempre ascendendo”

2) ROMANELLI, Rubens C. – “ Primado do Espírito”, tópico III – Temas Filosóficos: “Evolução”, pág. 55 – Ed. Síntesi, Belo Horizonte – 3ª edição, 1965.

3) KARDEC, Allan – “O Livro dos Espíritos”, 2ª p., cap. I, q. 115 – FEB, Rio de Janeiro – 77ª edição, 1997.

4) MATEUS – Evangelho: cap. V, vers. 14 – “Bíblia Sagrada” (CD-ROM) – Ed. Vozes, Rio de Janeiro – 1996.

5) MATEUS – Evangelho: cap. V, vers. 13 – “Bíblia Sagrada” (CD-ROM) – Ed. Vozes, Rio de Janeiro – 1996.

6) KARDEC, Allan – “O Livro dos Espíritos”, 1ª p., cap. II, q. 23 – FEB, Rio de Janeiro – 77ª edição, 1997.